Ana Borralho & João Galante

 

 

Fernando J. Ribeiro_Ana Borralho & João Galante_Aqui Estamos Nós_2014

Quimeras da História

O palco é um recolector de expectativas, impasses e constatações de uma plateia que confere carácter de verdade aos jogos de encenação. No palco são desenvolvidas experiências científicas que procuram desvelar a noção contemporânea de igualdade e liberdade; contando com a participação e presença do público. Os corpos que comparecem no espaço cénico apenas adquirem anima ao tomarem consciência do seu estatuto social e individual, através de questionários destinados a confirmar na (verdade da) estatística que alguém, ninguém e todos são efectivamente termos equivalentes e reversíveis.

Quando as questões levantadas se reportam paulatinamente a um fundo ancestral, a moral e a ética modelam comportamentos que aspiram à autonomia da vontade e do desejo. Os corpos expectantes deambulam e vão adquirindo consistência à medida que se vão apropriando da História – responsável pela atribuição de sentido às quimeras erigidas no presente. O palco torna-se uma terra de ninguém que devolve à plateia a tessitura de ficções inscritas num futuro sempre remoto.

Os corpos encontram as suas personagens somente para se depararem com a similitude da voz da persona, do interminável questionário e da própria plateia; que funcionam aqui como génese do universo ficcional. Mas os corpos são incitados a reclamar a sua presença, passando sucessivamente do livre arbítreo para o erótico, da auto-consciência para a compulsão. Abandonados no palco, os corpos e as personagens são entregues à rigorosa finitude de um presente que adquire coesão e beleza pelo confronto com o infindável da História.

Fernando J. Ribeiro

Texto incluído na folha de sala de Aqui Estamos Nós, Teatro Maria Matos, 2014

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Ana Borralho & João Galante, Purgatório, 2013

Purgatório

Conferir transparência ao mundo está sempre dependente do grau de nudez que cada cidadão consegue atingir, no decurso de exames de consciência que vão desvelando a orgânica das relações sociais e políticas. A manutenção da consistência e opacidade dos corpos advém da entrega à sua condição animal e, por conseguinte, da noção de inseparabilidade de corpos que comungam das mesmas mentiras, da mesma cegueira, da mesma inocência.

Purgatorium

To bring transparency to the world is always dependent on the degree of nudity that every citizen can attain, in the course of conscience examines that will unveil the organics of social and political relations. The maintenance of bodies consistency and opacity comes from its delivery to animal condition, and therefore the notion of inseparability of bodies which share the same lies, the same blindness, the same innocence.

Fernando J. Ribeiro, Purgatório, in caderno do XX Aniversário da Culturgest, Lisboa, 2013

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Ana Borralho & João Galante, Atlas, 2011

A Multidão Futura

Desde a irrupção da Revolução Industrial, a gradual distribuição dos cidadãos por cargos ultra-especializados foi conduzindo a uma literal fragmentação da coletividade, enquanto corpo inalienável. A unidade do universo humano é conferida em Atlas, não pela sua governação, mas pela junção de todos e quaisquer sujeitos instituídos como cidadãos, veiculando assim a formação de um sensus comunis baseado na funcionalidade e manutenção do aparelho social. Edificando o fazer como substrato comum, os cidadãos em palco vão-se assumindo gradualmente como multidão até esta adquirir o estatuto de um ser indivisível que, tacitamente, se estende à escala planetária.

Consoante a gestão do mundo vai sendo entregue à circulação infinita de um capital auto-reprodutível que, assim, assume um carácter inumano, a consciência da infimidade dos sujeitos vai-se tornando mais aguda, pelo que apenas a escala da multidão é garante de sustentabilidade do corpo social. Corpo sempre em iminente risco de colapso, mas também o único agente que sustém a noção de futuro.

Do mesmo modo, ao incluir a multidão e, por inerência, o sublime social, a obra de arte corre o risco da sua mesma desagregação, enquanto produto institucional. Ainda assim, é na diluição da autoria e subsequente entrega a todos os cidadãos que a arte assegura a sua monumentalidade, ao tornar-se indistinta do campo do imprevisível, quer este seja oriundo da natureza humana ou dos seus destinos.

The Future Crowd

Since the outbreak of the Industrial Revolution, the gradual distribution of citizens for ultraspecialized positions was leading to a literal fragmentation of the community, while inalienable body. The unity of the human universe is given in Atlas, not by their government, but by joining any and all subjects instituted as citizens, thus sending the formation of a sensus communis based on functionality and maintenance of the social apparatus. Erecting to make it as common substrate, citizens will be on stage as crowd, gradually assuming this to acquire the status of an indivisible being that, tacitly, extends to the global scale.

While the management of the world is being delivered to the endless circulation of a self-reproducible capital, which thus takes on a ruthless character, awareness of subjects’s lowermost scale is becoming more acute, so that only the scale of the crowd ensures the sustainability of the social body. Body always in imminent risk of collapse, but also the only agent that supports the notion of future.

Similarly, to include the crowd and, by extension, the social sublime , the work of art runs the risk of its own breakdown as institutional product . Still, it’s in the dilution of authorship and subsequent delivery to all citizens that art ensures its monumentality, by becoming indistinct of the unpredictable field, whether it is derived from human nature or their destinations.

Fernando J. Ribeiro, A Multidão Futura, texto policopiado na performance Atlas, MM – Maria Matos Teatro Municipal, Lisboa, 2011

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Ana Borralho & João Galante, World of Interiors, 2010 

Ecos de uma Sombra Anónima

Tomando de empréstimo o título de uma revista de decoração arquitectónica, a performance World of Interiors vira do avesso o seu referencial, ao suprimir qualquer vestígio de um décorenvolvente e que fomente a autonomia dos seus utentes. A presença humana passa, antes, por um deslocamento sucessivo do corpo e da voz e, por sua vez, de quem profere para quem recebe mensagens de alerta, por via oral. A perscrutação de uma completude deve contar, assim, com a desmultiplicação interminável de palavras balbuciadas em surdina, que o receptor pressente como ecos da sua consciência, mas alojados num campo subliminal. Tal como o espaço é coberto de vozes alheias aos seus próprios portadores – por meios protésicos e por corpos inanimados -, também a consciência é accionada através do ventriloquismo; inerente a cidadãos que recorrem ao anonimato como sistema de camuflagem : o cariz feérico do discurso verbal não encontra correspondência com a sombria neutralidade corporal e, deste modo, é garantida a intensidade de uma voz Outra, interior, que, para o mundo exterior, surge enquanto sombra suspeita e prestes a ser definitivamente silenciada.


Fernando J. Ribeiro, Ecos de uma Sombra Anónima, texto policopiado na performance World ofInteriors, Museu Coleçcão Berardo, Lisboa, 2010

Echoes of an Anonymous Shadow

Taking its title from an interior decorating magazine, “World of Interiors” turns this reference inside out by suppressing any vestige of a décor that might encourage the autonomy of its users. Human presence is communicated by successive dislocations of body and voice and is passed orally from sender to receiver. Complete understanding requires an interminable de-multiplication of muted words that the receiver perceives as subliminal echoes of his conscience. Just as space is filled with voices that are strange to its bearers – prosthetic and inanimate bodies – our consciousness is put into action through ventriloquism, inherent to citizens who make use of anonymity as a system of camouflage. The fairy-like qualities of verbal discourse do not match the somber neutrality of the body and, in this way, the intensity of the Other voice, interior, that to the exterior world materializes as a suspicious shadow about to be definitively silenced.

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Ana Borralho & João Galante, No Body Never Mind 3, 2006

A Comunidade Imperceptível

Própria de uma conjuntura social empenhada no progresso técnico-científico como ponto de fuga civilizacional, a privacidade enquanto culto massivo é indissociável da Revolução Industrial e da consequente explosão demográfica, que doravante surge em cidades cujas escalas desmesuradas proliferam hoje por todo o globo. Adquirindo o estatuto de modelos da estrutura sócio-política, os dispositivos mecânicos destituídos de uma totalidade que transcenda a soma das partes, incrementam o isolamento da experiência individual, através da divisão do trabalho pela especialização, ou dos media que isolam os acontecimentos. Consoante o sentido de comunidade se vai fragmentando até ficar inócuo, a privatização das vidas humanas torna-se a única estratégia possível de sobrevivência, ainda que esta versão do processo esteja já contemplada na composição da esfera pública. Em suma, a premência de privacidade aliena os sujeitos de um domínio dito público, que apenas perdura graças ao fetichismo da mercadoria, característico de quem desconhece – e teima em desconhecer – a origem e totalidade do seu impulso desejante; que é o mesmo que dizer, encontra-se alienado, igualmente, de si mesmo.

As performances realizadas por  Ana Borralho & João Galante ao longo dos últimos anos denotam noções paradoxais relativamente aos termos “público” e “privado”. Se o frequente enfoque na inter-relação estreita e imediata entre os performers e os espectadores, assim como da questionação dos estatutos que lhes são tacitamente atribuídos, fomenta o seu isolamento, trata-se de uma dimensão que assume uma brevidade extrema: ainda que as acções desenvolvidas entre os performers e o público assumam um carácter privado, esta hipótese é sabotada pela dimensão voyeurística que o restante público é levado a incorporar, enquanto observa os jogos que se vão desenrolando no espaço cénico. Deste modo, inclusive os campos encarados como os mais privados (é o caso do corpo, do desejo, do Verbo e, até, da pose fotográfica), são gradual ou repentinamente absorvidos por uma sobre-exposição que os instala no domínio estritamente público. Daí a insistência em convocar os espectadores como parte integrante das peças já que, por inerência, o seu carácter público é conferido pelo próprio público; incitado a comparecer numa esfera em que a fronteira entre o privado e o público é quase imperceptível.

Enquanto a velocidade contemporânea retira a possibilidade de uma observação atempada das acções e reacções dos outros (sendo pela sua imitação que, segundo Walter Benjamin, são estabelecidas as relações afectivas), Ana Borralho & João Galante dedicam-se à génese das afeições, pelo que as suas peças comportam uma indolência que pode atingir o carácter de still life e que perpassa para os receptores, sendo a partir deste estado comum de contemplação mútua que o sentido de comun-idade pode começar a despontar. A desmultiplicação dos performers patente nas peças implica uma diluição da sua aura e a subsequente formação do sentido de comunidade, a ser transferido para um público que, enquanto massa anónima, adquire então visibilidade e, por acréscimo, é conferido a cada sujeito uma identidade baseada na dialéctica do ver e ser visto – remetendo para a teoria freudiana de que nunca se sente pela primeira vez, pois todas as afeições experienciadas no presente são transferências, repetidas incessantemente, do que já foi vivido por outrem.

O projecto de Ana Borralho & João Galante implica um isolamento do espaço cénico e a sua subsequente atmosferização: tanto os monólogos nos leitores de mp3 de World of Interiors como as músicas sensuais nos headphones em SexyMF e MisterMiss, ou a(s) música(s) de fundo em Still Life conferem ao som a capacidade de fornecer unidade aos eventos decorridos no (não-)lugar do espaço performativo. A míriade de apelos e reflexos tornam-se assim comuns e, subsequentemente, privatizam-nos em prol de uma comunidade formada a cada instante. Mas é devido ao seu carácter efémero que a mesma privacidade pode – e deve – ser desmantelada; salvaguardando a consciência da sua iminente publicitação, quer para lá das fronteiras da zona comunitária, quer no próprio espaço performativo, através dos impulsos voyeurísticos e/ou narcísicos. Em World of Interiors, como o próprio título indica, o enfoque assenta num campo privado, sendo através do Verbo que o(s) sujeito(s) em estado comatoso adquirem a sua verticalidade interior e a sua (auto-)presença, passando a linguagem a adquirir contornos rigorosamente privados. Ainda assim, trata-se de uma presença veiculada por dispositivos protésicos, de leitores de mp3, pelo que o privado é sempre mediado pela esfera pública da hi-tech. Por outro lado, emSexyMF e em MisterMiss a dimensão íntima do corpo é obstruída pela mudança da identidade sexual dos performers: se o desejo é instigado a comparecer até não se distinguir da carne, a sua singularidade é suplantada por uma persona cuja máscara impôe uma distância implacável entre performers e público. Tal como na fotografia e no filme, a persona adquire a neutralidade de um ecrã onde são projectadas as imagens fabricadas pelos espectadores-voyeurs, sendo assim que os rostos são privatizados, mas, ao isolar as partes do corpo e do conjunto da performance, confere-lhes uma sobre-exposição que as remete para uma exterioridade propriamente pública. Em Untitled, Still Lifea plateia vai gradualmente dissolvendo-se até o público se imiscuir no campo Outro do palco para, aí, comparecer numa sessão fotográfica. A sobre-exposição dos espectadores no palco é, assim e em simultâneo, contrabalançada pela integração numa (micro-)comunidade que se sustém apenas enquanto Still Life, ou seja, enquanto pose – fotográfica – que cria uma perenidade meramente utópica. Através da pose é assegurado o cariz privado de uma comunhão que se estende pela eternidade; veiculada apenas por uma memória protésica, sem ancoragem na experiência individual, mas cujas reverberações alimentam as imagens próprias dos participantes. A performance institui-se então como uma alternância constante entre a ruptura interior e a sua dissolução: se comparecem no mesmo corpo duas identidades sexuais (SexyMF e MisterMiss), ou a inércia e a voz são simultâneas (World of Interiors), do mesmo modo que a integração do público só coincide com o contacto afectivo em breves momentos, tratam-se de estados impossíveis, que tanto podem revelar uma condição traumática como podem denotar a premência de uma condição utópica.

Os performers despoletam e colocam no palco o que é tido como a esfera privada de cada sujeito, mas acabam, em simultâneo, por desacreditá-la ao considerar a sua existência apenas passível de concretização graças a uma estrutura cénica que, inevitavelmente, comporta o recurso a dispositivos tecnológicos e a comportamentos reflectores de uma esfera pública imersa nos mecanismos da bio-política. Contudo, tratam-se de peças que não excluem a possibilidade de, exactamente no cerne dessas condições sócio-políticas, poder eclodir uma singularidade imperceptível; possível apenas no instante mesmo do contacto íntimo entre performers e público. Assim que o contacto se desfaz, têm lugar todo o tipo de projecções e contra-projecções, responsáveis pelo egocentrismo dos espectadores e da sua entrega ao arquivo de identificações, isto é, desviando a peça para a sua dimensão pública: obstruindo a ligação afectiva com os performers, o público recua e, ao instaurar uma distância indelével, desconstrói a encenação até a reduzir a uma mera soma de aparatos prótesicos. Aquando da entrega à empatia por objectos – tanto materiais como humanos – que nos devolvam uma mais valia narcísica e, como o seu limite coincide com a imobilidade do ícone, os performers devem atingir o estatuto objectual de um espelho que reflicta as emoções registadas no arquivo psico-fisiológico do público. Ostentando a configuração fantasmática de objectos pertencentes a um passado remoto, os performers aguardam pela sua transfiguração, levada a cabo por espectadores que, num lapso de tempo, se permitam aceder a uma proximidade – seja visual, física ou verbal – sempre excessiva, porque irrompe para uma transparência anunciadora da condição inumana do Real.

 Fernando J. Ribeiro, A Comunidade Imperceptível, in MM – Maria Matos Teatro Municipal – Jornal 4 (Res publica/Res privata), pp. 44-45, 2010

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Ana Borralho & João Galante,  Untitled. Still Life, 2009

A Volúpia (antes) da Imagem

Entrar numa sala de espectáculos corresponde inevitavelmente a fazer uma incursão num território autónomo, para cá do qual subsiste apenas o rumor longínquo das memórias, accionadas pelos jogos performáticos. Untitled. Still Life evoca a suspensão da vida, que passa a ser possível apenas após ter sido submersa no domínio da imagem: desde o início o palco adquire o estatuto de plateia, mas somente de modo a que a arbitrariedade gestual do público seja sustida pelo olho, a um tempo cego e omnividente, da máquina fotográfica. A desvelação dos corpos e das suas pulsões efectua-se assim sob a protecção de um ecrã digital, que legitima a génese de uma comunidade sempre micro e sempre contingencial, porque detém como núcleo um sofá estabelecido como cenário constante para um álbum de família. Ainda assim, a distância própria ao ecrã produzido pela imagem confunde-se com um slow motion, em que a envolvência afectiva e/ou erótica se pode propagar.  Dilatando os instantes cinemáticos, a ambiência sonora e musical quase imperceptível torna porosas as fronteiras do núcleo comunitário. No entanto, “no hay banda”, os ritmos anímicos são sempre gravados, filtrados, imaginados; são infinitamente distantes e, ao mesmo tempo, excessivamente próximos na sua pertença às memórias e instintos mais primordiais – anteriores à formação de todo e qualquer ecrã.

Colocar os gestos em still, entregá-los a uma suspensão que os aproxima do silêncio dos fósseis, corresponde à inclusão dos seus agentes na intemporalidade das imagens. Em Untitled. Still Lifeessa condição cobre toda a atmosfera cénica sem, no entanto, nunca acabar por acontecer : se a máquina fotográfica dispara amiúde, os espectadores-actores desconhecem por completo o seu resultado visual. A simultânea omnipresença e iminência dos registos fotográficos abre espaço para o desejo que, por inerência, existe num perpétuo compasso de espera. Compasso medido pelo aparelho fotográfico, que serve de eixo do espaço cénico (incluíndo plateia e palco), de modo a funcionar como mediador nas funções cambiáveis de espectador e de actor. Prepassando para os olhares e gestos dos intervenientes, o still latente na câmara torna iminente a consumação do desejo para o deixar sempre intacto, sempre entregue à sua própria esfera; aqui objectualizado num sofá-palco. As pulsões libidinais e a eternidade prometida pelo tempo líquido da fotografia digital ficam, assim, indistinguíveis, através de poses que conferem lentidão aos movimentos e aos olhares.

Comparecendo num antes da imagem, é como seu negativo que as pulsões irrompem, em que a evanescência por via da fossilização, produzida pelo instantâneo fotográfico, é desmantelada; pelo que a estrutura performativa pode a qualquer momento ser subvertida por qualquer membro do público, isto é, em que a vida pode despoletar no momento exactamente anterior à irrupção da imagem, em que a banalidade do corpo rasga o ecrã fabricado pelos dispositivos visuais e auditivos. Sendo os ecrãs responsáveis pela autonomia ínfima dos humanos, rasgá-los corresponde sempre a acções pontuais e, como tal, à elaboração de um basculamento incessante entre interior e exterior, pelo que ver e ser visto adquire uma reversibilidade irredutível, que constitui a génese da volúpia.

Lust (before) the Image

 Entering a theater hall corresponds inevitably to make a foray into an autonomous territory, behind which remains only the distant rumor of memories, driven by performative games. Untitle. Still Life evokes the suspension of life, which will be possible only after being submerged in the image domain: from the start the stage acquires the status of an auditorium, but only so that the audience’s gestural arbitrariness be sustained by the eye, at a time omniscient and blind, of the camera. The unveiling of the bodies and their impulses is thus carried out under the protection of a digital display, which legitimizes the genesis of a micro and always contingent community, because its core has a sofa set as constant backdrop to a family album. Still, the distance to the screen itself produced by the image merges with a slow motion, in which the affective involvement and/or erotic can spread. Dilating cinematic moments, the ambience sound and music almost imperceptibly becomes porous the boundaries of the core community. However, “no hay banda”, psychic rhythms are always recorded, filtered, imagined; they are infinitely distant, and at the same time too close in his belonging to the memories and primordial instincts – prior to the formation of any screen.

To place the gestures in stillness, deliver them to a suspension that approaches the silence of fossils corresponds to the inclusion of its agents in images’s timelessness. In Untitled. Still Life that same condition covers the entire scenic atmosphere without, however, never end up happening: if the camera shoots often, spectators-actors are completely unaware of their visual outcome. The simultaneous ubiquity and imminence of photographic records leaves room for desire, that inherently exists in a perpetual holding pattern. Compass measured by the photographic device, which serves as an axis of the scenic space (including the stage and the audience), so as to function as a mediator in the switchable functions of viewer and player. Pervading for the looks and gestures of the actors, the still latent in the camera becomes looming the consummation of desire, to always leave it intact, always delivered in its own sphere; here objectualized as a sofa-stage. Libidinal drives and the promised eternity by the net time of digital photography are thus indistinguishable, through poses that give slowness to the audience movements and looks.

Appearing before image, it is as its negative that desire drives erupt, dismantling the evanescence via a fossilization that occurs during the snapshot, in such a way that the performative structure may eventually be overthrown at any time, by any member of the public, ie, where life can trigger exactly when preceding the outbreak of the image, where the banality of the body rips the screen devices, manufactured by visual and audio apparatus. Being screens responsible for the tiny autonomy of human beings, to rip them corresponds always to punctual actions and, as such, to the development of a relentless tilt between inside and outside, so that to see and to be seen acquires an irreducible reversibility, that constitutes the genesis of lust.

Fernando J. Ribeiro, A Volúpia (antes) da Imagem, texto policopiado na performance Untitled (Still Life), galeria ZDB,Lisboa, 2009

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