João Fonte Santa

Fernando J. Ribeiro_João Fonte Santa_Stolen Books_2014

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JOÃO FONTE SANTA_NUCLEAR_2014


 

Paisagens Profanas


Consoante os acidentes e rumores da sua utilização militar se vão sucedendo, as centrais nucleares tornam-se o exemplo paradigmático da leviandade com que as multinacionais encaram os riscos associados aos produtos industriais, assumidos em nome do progresso técnico-científico. Como tal, a ideia de pintar centrais nucleares apontaria naturalmente para imagens de impacto imediato e retumbante. No entanto, João Fonte Santa toma em conta as estratégias de marketing que sustentam a ambivalência da opinião pública sobre essas fontes energéticas, acabando por dissipar e, inclusive, silenciar a ameaça que paira sobre o horizonte.
Mantidas em zonas recônditas e inacessíveis, as centrais nucleares apenas são resgatadas da invisibilidade através da sua inserção nos bancos de dados da internet, onde alguns planos gerais se acabam por confundir com qualquer outra estrutura fabril, pelo que incutem um reconhecimento que dilui as suspeitas sobre o funcionamento do seu interior. O recurso à aguarela para a produção de 54 Centrais Nucleares remete para a recepção desses registos fotográficos, que catapultam os complexos industriais para uma distância infinita, porque estritamente visual: ao invés do óleo e do acrílico, a aguarela carece de espessura e homogeneidade que lhe atribua corpo e presença, pelo que as imagens surgem como impressões  capazes de instaurar presenças que, encontrando-se em perpétuo devir, assumem uma dimensão utópica.
A passagem do digital para um medium que ostenta uma materialidade indelével, ao invés de humanizar os referentes, neutraliza-os de modo definitivo pela atmosferização das paisagens, em que a diluição das estruturas industriais as apaga da memória, assim como lhes retira o peso de tragédias futuras. A tarefa da representação – de tomar posse dos referentes para os devolver à escala humana – é assim permanentemente retardada, ao ser resumida a apontamentos que cumprem a promessa do aqui e agora do reconhecimento apenas num ápice; quer devido às características do medium, quer devido à escala diminuta das aguarelas, ou ainda pela sua proliferação e disseminação pelo espaço (replicando a presença das centrais nos computadores pessoais de cada cidadão).
Como o título da série indica, as 54 Centrais Nucleares interrompem e acabam por profanar a tradição da paisagem, tida como retorno pontual ao domínio natural, aquando da imersão num mundo mecanizado. Mesclando ambos os universos, as aguarelas ultrapassam a sua condição visual e pictural, para se dirigirem a um corpo social capaz de as usar e reformular incessantemente.

Profane Landscapes

Just as accidents and rumors of its military use are happening, nuclear power stations become the paradigmatic example of the ease with which multinationals face the risks associated with industrial products, made in the name of scientific-technical progress. As such, the idea of painting nuclear power plants would point to pictures naturally and immediately resounding impact. However, John Fonte Santa takes into account the marketing strategies that support the ambivalence of public opinion on these energy sources, eventually dissipate and even mute the threat hanging over the horizon.

Kept secluded and in inaccessible areas, nuclear power plants are just redeemed of invisibility through their inclusion in the databases of the Internet, where some general plans are eventually to be confused with any other industrial plant structure and therefore instill an acknowledgment that dilutes suspicions about the operations developing in its interior. The use of watercolor for the production of 54 Nuclear Power Plants refers to the receipt of photographic records, which catapult the industrial complex to an infinite distance, because strictly visual: rather than oil and acrylic, watercolor lacks thickness and uniformity to give it body and presence, so images that are able to establish prints presences that, lying in perpetual becoming, assume an utopian dimension.

The transition into a digital medium that bears an indelible materiality, instead of humanizing the referents, neutralizes them definitively by the atmospherization of the landscapes, in which the dilution of industrial structures erases the memory, and withdraws the weight of future tragedies. The task of representation – to take possession of its objects to make it possible to return them to the human scale – is thus permanently delayed, since they are summarized to notes that fulfill the promise of the here and now of recognition just in a glance; either due to the characteristics of the medium, either due to diminished scale watercolors, or by their proliferation and dissemination in space (replicating the presence of plants in the personal computers of every citizen).

As the series title indicates, 54 Nuclear Power Plants interrupt and end up desecrating the tradition of landscape, assumed as a punctual return to the natural domain, when upon the immersion in a mechanized world. Merging both universes, watercolors overlap their visual and pictorial condition, to address a social body that is able to use and reshape it incessantly.

Texto de apresentação do livro de João Fonte Santa, 54 Nuclear Power Plants, Stolen Books, Lisboa, 2014

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