Luísa Cunha

CIMG0243 copy

 Luísa Cunha, da série Por Agora, 2017

Tempo Suspenso

Tem-te Bem reporta-se ao nome de uma rua de Abrantes, advertindo para perigos iminentes, susceptíveis de acontecer a quem percorre terrenos acidentados. Proferida por uma voz incorpórea, a frase reporta-se não só a ameaças de natureza física, mas igualmente à fragilidade do campo ontológico. Instalada numa antecâmara do espaço expositivo, a instalação sonora dá título à exposição e, portanto, torna-se transversal ao conjunto de obras apresentadas. Enunciando um equilíbrio instável, subjacente a toda a existência, esta mostra recorre ao modo como a relação tangencial dos objectos e da linguagem com uma geometria estrutural se torna garante de estabilidade, a que os seus usuários não têm acesso directo. Condição deveras explícita em Objecto #1, constituída por dois sólidos eixos centrais que se expandem através de filamentos, adquirindo a sua autonomia espacial graças à ostentação de um estabilidade visual indelével. Não obstante, a sua escala modesta e a sua constituição fragmentária atribuem-lhe uma condição objectual e, como tal, a precariedade do que se sustêm apenas ao abranger todas as coordenadas espaciais.

Na série fotográfica Por Agora, a panóplia heteróclita de objetos que o transeunte vai encontrando e fixando, através do dispositivo fotográfico, são encostados a paredes ou passeios até possuírem a inércia silente das superfícies e volumes geométricos. Do mesmo modo, na série Contadores o olhar do transeunte pousa e surpreende-se aquando da súbita ausência de fluxo, em paredes de onde foram retirados contadores de água e as portas que os ocultavam; revelando a matéria inerte, a superfície escavada denota a desertificação a que foram votadas. Na instalação Uns Debaixo dos Outros, a visão de tijolos sem argamassa sugere um intuito construtivo, mas aquando da sua acumulação de modo aleatório e massivo, da estabilidade tectónica apenas restam os módulos da sua produção; tratam-se apenas de escombros de habitáculos que, queimados, sem nome e sem história, enunciam a universalidade de uma inevitável entropia, que retira legitimidade a qualquer pretensão de perenidade arquitectónica e, por acréscimo, civilizacional. Também Uma por Cima da Outra aborda a edificação das cidades como acumulação perpétua de camadas, que se vão anulando sucessivamente. Mas a substituição de nomes de ruas como “Rua dos Oleiros, “Rua da Cadeia,” “Rua Cega” ou “Rua do Canzana” por nomes de figuras individuais que, amiúde, se perderam da memória, corresponde à pulverização das atividades ou qualidades que outrora lhes eram  inerentes. Ao campo da narrativa e da história foi sobreposta uma neutralidade que, pretensamente, se torna garante de uma estabilidade existencial proporcionada por um sistema rigorosamente abstracto.

Recorrendo ao modo como o tempo vai sendo interrompido pelas pretensões e premências do que se entende por moderno, Luisa Cunha capta sinais ínfimos e quase invisíveis para, de seguida, enfatizar a sua condição ao colocá-los fora do seu contexto. Isolados por enquadramentos fotográficos, pelo recurso exclusivo da voz ou pela inversão da sua função – nos tijolos queimados -, os acontecimentos visuais ou verbais são resgatados do oblívio. Se o tempo da memória é estancado na cidade pelo vórtice do presente, esta exposição aglutina esse sintoma, mas apenas para redimir tudo aquilo que por ele foi atingido. A interrupção brusca do fluxo temporal é assim subvertida pela sua mesma suspensão, através da qual podem os elementos manifestar a sua presença e vitalidade. Apenas através desta estratégia podem funcionar como espelho negativo do anonimato e abandono a que foram entregues. No entanto, será pelo recurso à suspensão temporal que, no interior das imagens e das ações, o fluxo temporal manifesta o seu indelével poder. A vida – seja urbana, histórica ou individual – passa a ser equacionada como maquina mundi, como mecanismo funcionalista permanentemente acionado, que, periodicamente, pode ser interrompido aquando da alteração da sua lógica, deixando ao abandono diversas das suas componentes. Uma solidão primordial apodera-se então desses elementos, instaurando uma distância infinita que os sentencia ao isolamento do universo museológico, assim como à alienação dos seus utentes.

Em Abrantes e noutras paragens, Luisa pressente essa condição e materializa-a pelo recurso a enquadramentos fotográficos, de objectos devidamente arrumados e encostados a paredes, ou dos vazios criados por caixas arrombadas cujos contadores de água se encontram definitivamente ausentes. A derrocada de uma construção inominável e provocada por causa alguma, suspende a sua localização espacio-temporal, sendo a queimadura dos tijolos o único indício de uma perda irremediável e propagada ad eternum. Nas obras sonoras, os nomes das ruas perdem a materialidade da escrita para serem ditas por vozes que, emitidas apenas por altifalantes, são inscritas num tempo interior, por definição ilimitado. Assim, Tem-te Bem é direccionado para o inefável do campo ontológico, e Uma em Cima da Outra dilui a hierarquia do presente e do passado, fixada na pedra das placas, ao transferi-los para o regime da passagem, incorporado pela voz humana. O tempo é suspenso apenas de modo a que possa manifestar todo o seu peso, materializando-se num silêncio interior que deposita tanto o campo verbal como objectual ou, inclusive, espacial no domínio da matéria, que, por inerência, está votada a uma perpétua transformação, porque entregue aos desígnios temporais.

Fernando J. Ribeiro

Publicado no catálogo Tem-te Bem, de Luísa Cunha, Câmara Municipal de Abrante, 2017

 

FEdrnando J. Ribeiro_textos sobre Luisa Cunha_2014

Luisa Cunha, Ongoing Landscape Series, C-print, 2013 

Je Repars à Zéro

A melancolia pertence a quem se desliga, por instantes, do domínio espácio-temporal e realiza incursões em zonas insondáveis, que gradualmente são incluídas na escala individual.  Na série Ongoing Landscapes, Luisa Cunha reconhece a premência de objetualidade que tal investida comporta, aquando da inclusão de resquícios de vida terrena aonde a evanescência atmosférica cobre todo o espaço alcançável. Despontando pontualmente da vastidão incomensurável do céu, o enublado passageiro fornece consistência visual ao campo do diáfano e, por acréscimo, devolve escala a breves apontamentos em que o geológico, o vegetal, o tectónico e o humano amiúde se confundem. Os elementos terrenos são tidos por sombras que, de imediato, adquirem um estatuto objetual para, de novo, ser diluída a sua nomeação – ecoando a condição de um ecrã cujos tons de cinza denotam a consciência de que apenas a sombra do infinito é passível de ser inscrita no dispositivo fotográfico.

Consciente da impossibilidade de fixação – do inumano e do humano -, Luisa Cunha subverte a natureza da fotografia, ao tomar a sucessão das paisagens como referencial de uma turista empenhada em esquecer os nomes daquilo que perscruta vezes sem fim.

Fernando J. Ribeiro, “Je Repars à Zero,” folha de sala da exposição Ongoing Landscape Series, Galeria Miguel Nabinho, Lisboa, 2013

luisa-cunha1

Luisa Cunha & Bruce Nauman: Uma Performance e uma Conversa, 2010

Como o próprio título indica, Luisa Cunha & Bruce Nauman: Uma Performance e uma Conversa, de 2010, resume-se a um encontro cujas particularidades os visitantes têm conhecimento através de um texto espalhado pelos dois contentores industriais em que se desenrola o acontecimento.  Apesar do fornecimento da descrição de uma sinergia criativa incessante, as brutais massas empilhadas de metal dos contentores – com uma escala que impõe uma implacável distância – obstruem abruptamente a conexão com a conversa-performance decorrida no seu interior.  Paradoxalmente, a rudeza dos espaços de transporte de mercadorias oculta agora habitáculos acolhedores, mas que, para quem se encontra no exterior, permanecem numa penumbra a ser interrompida por pontuais e etéreas zonas de luz. O abrupto contraste entre o excesso de visibilidade dos contentores e a (quase) invisibilidade da conversa-performance corresponde ao hiato entre a materialidade do presente – hoje cingido ao campo objectual – e o regresso aos confins da memória, encarado como possibilidade de produção da génese do futuro, propriamente comunitário.

      Se o público é levado a unir as personagens através da produção de uma atmosferização do interior e, como tal, a conferir-lhe umcontinuum espacial, trata-se de uma ilusão a ser desfeita pelo facto de cada protagonista ocupar o seu próprio compartimento, do mesmo modo que a sua comunicação é estabelecida através de dispositivos electrónicos. Se as acções desenvolvidas no interior parecem equivaler a uma génese do processo criativo e, inclusive, ter correspondências com um ritual iniciático, surgem numa dinâmica que conta sempre com prolongamentos protésicos que incitam à supressão do contacto corpóreo, pelo que a inclusão de interfaces entre os agentes da conversa fomenta uma ambiguidade entre os campos da ontologia e da tecnologia. Assim como os contentores industriais são selados com correias e cadeados e dos seus interiores ressoa apenas um silêncio monádico – tornando inócua a verificação de presenças humanas efectivas -, também os avatares que proliferam nas auto-estradas da informação existem, simultaneamente, em todo o lado e nenhures.

Publicado in Homeless Mona Lisa:http://homelessmonalisa.darq.uc.pt/

Words for Gardens

Constituindo-se pela aglutinação de espécies vegetais oriundas das mais diversas regiões, o jardim funciona como não-lugar, cuja autonomia propicia a deambulação e subsequente elaboração de cartografias interiores, que encontram na lisura do relvado a correspondente da sua estrutura, como é demonstrado na obra de Luisa Cunha, Words for Gardens, de 2004. Iniciando-se pela afirmação do desejo de desenhar, a performance verbal revela um deslocamento do sujeito aquando da sua deambulação pelo jardim.[i] A resolução do hiato passaria então pela prática da mimesis, passível de concretização pelo enfoque na relva. Centrando-se nesta superfície, Words for Gardens transferem-na para a interiorização da paisagem, passando a inércia do manto verde a possibilitar a sua reprodução verbal. “Starting wherever you want. It doesn’t matter. Going wherever you want”, com impressões pontuais que vão tomando posse do horizonte interior, no não-lugar da página branca, a ser mapeada pela repetição infindável de um “rapid intense movement of your hand.”

Diluindo-se no vazio assim que é dita, a implícita verticalidade do traço apenas adquire consistência pela sua incessante repetição, em “endless sheets of paper”; tornando latente uma horizontalidade constituída como eco da extensão do relvado. A página imaginária absorve marcas gráficas cuja fisicidade assume um cariz escatológico, aquando da sua diluição num ecrã cutâneo “all green and smooth.” Dissolvendo o hiato fenomenológico entre sujeito e objecto, a deambulação incessante pela página comporta uma pulsão de morte que suspende o juízo, pelo que cada traço demarca a verticalidade do presente em que o sujeito comparece no mundo.


[i] “You cannot draw. You say you draw. You wish you could draw. You see. You see things. You see people. You see people moving things. You see people moving people. You see things that do not move at all. You see things moved by people. You see things that move without you noticing it. You notice they have moved but only some time later. They have been moving all the time. You come back and they are changed. And then you say: “The have grown” and they go on growing without you seeing it. And you come back later. You then see they are not there anymore. And you say: “They have disappeared.” Grass. You can draw grass. On endless sheets of paper. Starting wherever you want. It doesn’t matter. Going wherever you want. It doesn’t matter. Touch the surface of the paper with a rapid intense movement of your hand. Hold on on the point of touch. You realise what you have just done and you say: “I drew a point. I’m stuck to this point. Where do I go from here?” Take any direction. Let the intensity of your gesture fade away leaving behind a short fading and slightly curved line. Draw another intense point. Let it fade along another fading and slightly curved line projected in another direction. And another intense point fading along another slightly curved line now projected in another direction. And another point along another line in any other direction. And another point and another line again in another direction. And again and again and again. You look at it. And you say: “It’s growing.” And you go on in all directions. Intercepting the short fading and slightly curved lines coming out of intense points planted all over. And you say: “The grass is growing fast.” Then you hold on for a moment. You look at the grass on the ground and you say: “There’s some space free here.” And you fill it with grass. Then you notice another empty space over here and another over there and then another on the left and another south and another southeast. You go on planting grass until the ground is all over covered. You watch the landscape. And you then say: “It’s all green and smooth.” Texto de Luisa Cunha

Fernando J. Ribeiro, excerto de O Perpétuo Presente: Heterotopias Glocais na Arte Contemporânea, 2009

b

Luisa Cunha, Red Shoes, 2008, C-print, 100x75cm each

Topografias Sonâmbulas

O conjunto de obras aqui apresentadas por Luisa Cunha tem como elemento transversal a expressão “Oh!”, aludindo a uma recepção votada à expectação, quando as indicações topográficas são demarcadas com precisão, mas carecendo de contextualização geográfica. Assim como o presente na recepção é mantido pela inércia de quem desconhece a localização dos acontecimentos, também É Aqui enuncia um eixo espacial que se cinge ao domínio verbal e, enquadrado numa galeria de arte, evoca a condição de não-lugar deste espaço.

Se a deriva interminável pelo espaço urbano firma uma integração nos seus pavimentos planimétricos, trata-se de uma operação efectuada apenas pelos Red Shoes. Enquanto se mantêm no registo Play,conferem a ilusão de movimento a um corpo ausente, ao mesmo tempo que a sua perpetuação suspende a dinâmica objectual e cinge a deambulação ao presente. O rebatimento das pedras da calçada e o seu movimento ondulatório suspendem a velocidade urbana, por acção de um sujeito que garante a sua autonomia pelo estabelecimento de uma inércia indelével. Os Red Shoes asseguram a invisibilidade do seu portador, mas em Pause integram-se na lógica do arquivo, pelo que a sobre-exposição a que são sujeitos lhes retira essa função, a ser recuperada  pelo inqualificável de resíduos escatológicos da viagem, depositados sobre objectos que produzem um campo gravitacional autónomo.

A salvaguarda da experiência pela subversão do projecto de neutralização dos acontecimentos através da sua arquivação, verifica-se igualmente na produção de um processo regressivo, não através de imagens fotográficas, mas da sua descrição. Se a transparência da “Mulher de 58 anos” poderia ser perscrutada pela recorrência à sua infância, a inocência obstrui a classificação e a univocidade semântica, sendo esta indeterminação completada pela ausência de imagens. À procura de unidade identitária através de registos fotográficos que imobilizam os sujeitos, contrapôem-se sucessivas poses que comparecem, não num passado remoto, mas no presente da leitura. Formada pela conjunção das poses, a apresentação da mulher adquire uma dinâmica performativa que, constituindo-se na exterioridade do presente, assegura a ocultação dos processos idiossincráticos de quem se mantém “rindo escondida por detrás de cortinado transparente.”


Fernando J. Ribeiro, “Topografias Sonâmbulas,” in desdobrável da exposição Oh!, de Luisa Cunha, galeria Lisboa 20, Lisboa, 2008

arte11

Luisa Cunha, P – Série # 1 – # 9, 2005, c-print, 100x70cm

Uma Porta para o Exterior pode fomentar um retardar protector ao instituir-se apenas como limite, quando Luisa Cunha a coloca enquanto frase inerente a um instantâneo fotográfico firmado como ponto cego, ao tornar a paisagem exterior uma atmosfera indiferenciada e que se vai confundindo com as frases consoante as fotografias se vão multiplicando; sendo assim o sujeito salvaguardado de qualquer contacto com o exterior, isto é, situando-se como mónada edificada por detrás da retina.

Fernando J. Ribeiro, excerto de “Universos Portáteis, in Arq./a, Paisagens Sintéticas, nº 50, Outubro 2007, pp. 80-82

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s